segunda-feira, 14 de janeiro de 2013


[2010]

Eu não consigo mais fazer poesia.


É preciso uma dose grande de loucura para isso.
Precisa de ausência. Da falta da realidade comum.
Do vazio transbordante.
É preciso uma densa leveza para fazer poesia.
Atrapalhar-se no vôo, desviar o caminho, perder-se
É preciso permissão maior para isso. Além da compreensão.
Entregar-se. Com os olhos abertos no escuro. Tatear o ar.
Transformar o abstrato em realidade palpável
Suavizar o concreto, alisar, lamber.
Precisa de coágulo e hemorrágica sangria.
De sangue espesso e oxigênio rarefeito.
É preciso reconhecer a dor que sente como uma amiga antiga
Sentar-se ao seu lado e olhá-la com doçura
Rasgar o verbo delicadamente, machucar a palavra com ternura
Arranhar a garganta em um grito contido
Ouvir o silêncio que nem se sabia existir
Sentir a presença física do invisível
É preciso abandonar-se da existência
E existir em níveis incompreensíveis, mas comum a todos
É. Não sei mais fazer poesia
É preciso loucura demais para isso.