Amo a noite e a promessa de silêncios pacíficos que ela traz.
soma de versos
domingo, 7 de junho de 2015
sábado, 19 de outubro de 2013
[2013]
Se eu soubesse
antes, eu tinha te deixado menino. Eu teria te deixado antes, menino. Se eu
soubesse que não te sabias tanto quanto eu te decifrava em teus loucos
devaneios desencontrados de coração ferido. Se eu soubesse que não te sabias,
tinha te deixado criança, sabendo-se tudo sem saber-se. Feliz. Mas tua procura
foi ao mesmo tempo tão ávida quanto do filho no ventre prestes a nascer. Queria
mais ar nos pulmões e eu não o soube criança. Vi a você homem feito. Queria tua
pele e nem quando te tive pude perceber o quão macia era de ser recém-criado.
Já nem sei mais quando nos conhecemos. Ao longo de todo este tempo (tempo?) e
dos poucos encontros, releio os diálogos que tivemos e não parecem nossos.
Alguns nem parecem que aconteceram. Parecem palavras perdidas entre este
espaço/tempo e outro qualquer. Eu não tenho todas as respostas. Mas era tão
visível para mim todos os teus eus por baixo de tuas máscaras. Me assustava
tanto te saber em tão poucos olhares. Ver em ti teus múltiplos decifrados em
tão pouco tempo. Tempo? O que é o tempo? Eu não entendo tudo... E sinto que
você sabia que eu te lia com tamanha facilidade... Eu não controlo nada. Você fechava
teus olhos, cobria com teus óculos escuros, desviava o olhar. Sem contato visual,
por favor. Tudo foi como um pedido sem palavras. Tive vergonha de minhas
confusas grosserias. Mas elas tinham uma finalidade pontual. Atender ao pedido
que eu lia em ti: se afaste de mim. Como quando não se sabia tão exposto e eu
não te sabia tão menino. Sem palavras, teu pedido era: se afaste de mim. E eu
me afastei. Tantas vezes que nem sabe. Nem sentes tudo que escrevo aqui. Não
leias estas linhas. Não é para que saibas. Não compreendes? Não pode. Ultrapassaria
a linha exata em que te apoia teu tempo. Se eu te soubesse menino... E tão
assustada ficava que eu mesma me sentia criança. Me via tão perdida nessa
leitura tão clara de suas nuances e sentimentos e explosões e tão distante. Se
afaste de mim. Era teu pedido silencioso. E hoje eu finjo que não te entendo.
Finjo que não te conheço e que te renego. Finjo raiva, rancor, finjo mágoa,
finjo que me feriu para te manter em teu caminho. E sou (cuidadosamente) tudo o
que não quer que eu seja. Te afasto de mim. Eu não escolhi ler teus silêncios.
quinta-feira, 7 de março de 2013
[2013]
O tic tac descompassado pelos atentos olhares e risadas que rondam o edifício, os gritos e helicópteros em torno silenciam ao toque. Estanca o relógio e se inicia a melodia de um milênio inteiro. A música toma conta do ambiente que é o universo infinito das sensações encontradas dos desencontros sutis de almas irmãs. Sobe ao céu o louvor sem religião daqueles que brilham sem querer. Brilham e pronto. Assim, simples. Nem percebem, se esbarram em explosões de luminosidade e criam no espaço imagens mitológicas dos momentos de glória de outras terras. Que hoje são estas. Vagueiam em presságios de negros tempos que passam. Tudo passa, com ou sem o descompasso do relógio. Matéria tão efêmera para algo tão grandioso como o tempo. O tempo que nem esse nome tem. O que é indizível e mutante. Dono deste milênio revelado e dos próximos, e dos passados. Todo senhor das gloriosas mudanças e das pequenas eternidades. Perenes. Resistentes ao grito escandaloso dos santuários quebrados. Santuários que não se guiam por religião. Apenas são. Assim. Simples. Deixa escorrer a liturgia com letras douradas pelas mangas rendadas do vestido. Sentada anônima no meio da multidão tenta pegar as letras no espaço, ler as frases no ar. Mas escapam-lhe enquanto [estupefata] vai voltando à realidade-ilusão da temporalidade deste mundo de conceitos práticos e limitados. Abre os olhos e agora caminha com esta visão. Não dá para esquecer. Tambores repicam. Rufa o vento. Vai.
O tic tac descompassado pelos atentos olhares e risadas que rondam o edifício, os gritos e helicópteros em torno silenciam ao toque. Estanca o relógio e se inicia a melodia de um milênio inteiro. A música toma conta do ambiente que é o universo infinito das sensações encontradas dos desencontros sutis de almas irmãs. Sobe ao céu o louvor sem religião daqueles que brilham sem querer. Brilham e pronto. Assim, simples. Nem percebem, se esbarram em explosões de luminosidade e criam no espaço imagens mitológicas dos momentos de glória de outras terras. Que hoje são estas. Vagueiam em presságios de negros tempos que passam. Tudo passa, com ou sem o descompasso do relógio. Matéria tão efêmera para algo tão grandioso como o tempo. O tempo que nem esse nome tem. O que é indizível e mutante. Dono deste milênio revelado e dos próximos, e dos passados. Todo senhor das gloriosas mudanças e das pequenas eternidades. Perenes. Resistentes ao grito escandaloso dos santuários quebrados. Santuários que não se guiam por religião. Apenas são. Assim. Simples. Deixa escorrer a liturgia com letras douradas pelas mangas rendadas do vestido. Sentada anônima no meio da multidão tenta pegar as letras no espaço, ler as frases no ar. Mas escapam-lhe enquanto [estupefata] vai voltando à realidade-ilusão da temporalidade deste mundo de conceitos práticos e limitados. Abre os olhos e agora caminha com esta visão. Não dá para esquecer. Tambores repicam. Rufa o vento. Vai.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
[2012]
e eles se encantaram tanto um com o outro. os encontros foram poucos, mas suficientes para marcar na alma como reencontro. desde o princípio. ela para ele luz. ele para ela anjo. os dois brilharam diante dos olhos refletidos. os encontros foram poucos, e eles se encantaram tanto um como o outro, que viraram encanto. de tão encantados, encantados ficaram os encontros, encantados ficaram os laços, que descruzaram os passos. se encontram em vôos de madrugada, quando deixam os corpos descansarem. ele veio falar com ela um dia, para acordá-la de um pesadelo. ela fala sempre com ele, abraçando-o ao redor das asas. protegem-se inteiros na alma. o amor encanto, enquanto o encontro não suporta o tanto.
e eles se encantaram tanto um com o outro. os encontros foram poucos, mas suficientes para marcar na alma como reencontro. desde o princípio. ela para ele luz. ele para ela anjo. os dois brilharam diante dos olhos refletidos. os encontros foram poucos, e eles se encantaram tanto um como o outro, que viraram encanto. de tão encantados, encantados ficaram os encontros, encantados ficaram os laços, que descruzaram os passos. se encontram em vôos de madrugada, quando deixam os corpos descansarem. ele veio falar com ela um dia, para acordá-la de um pesadelo. ela fala sempre com ele, abraçando-o ao redor das asas. protegem-se inteiros na alma. o amor encanto, enquanto o encontro não suporta o tanto.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
[2012]
Uma coragem à inconsequência
[2010]
DOS SILÊNCIOS
Me pego em labirintos sem saída, como se um caminho repetido atravessasse meu passo. Me perco no compasso de pensamentos e ações, embora saiba - in-fi-ni-ta-men-te bem - o que se passa no meu peito e na minha alma. A comunicação me trai, perdi a dose das palavras, perdi o senso comum, perco o tom. E eu que quero tanto dançar, me entrego ao silêncio. Uma das únicas vias que conheço bem ultimamente. Um dos únicos rastros que percebo de mim. Escuta. Eu não sei mais dar porrada. Minhas mãos amolecem no ar antes de tocar qualquer forma viva - distante ou perto. Me afasto, me calo, tolero, respiro fundo o agudo da agulha que trespassa miúda a carne e sangra. Tempos vazios. Tempo vil. E a partir de hoje em muito tempo que constato agora, só guardo em mim a vontade de cuidar. E ser cuidada. E não é só para variar.
[2004]
O perfume prevalece
Prevalece o perfume da rosa
Temperamental e voluptuosa
A escorregar por estes caminhos
Da doce vida dos artistas
Que se estendem em ninhos de poesias
Escritas em noites vadias
E fazem-me sentir o toque da lua nua
Minha estrada se confunde com a tua
Cria-se uma extensa magia
Dos que pintam e bordam palavras
Em versos, rimas ou prosa
Marcam a biografia da alma que fala
Filosofia de quem nunca se cala
Deixam rastros de flor pelas ruas
E Quando passo ao clarão da branda lua
Não ando, flutuo
Não escondo, revelo
Não sou espinho, sou rosa
Temperamental e voluptuosa
[2006]
Gosto quando minha boca toca a tua e nossos olhares se cruzam em meio aos beijos que surgem. E gosto do gosto que sinto quando o sentido que prevalece no beijo é nosso doce paladar. E gosto do doce do beijo que me aquece e me faz esquecer do mundo fora e fico eu dentro do desejo. Gosto do desejo de sentir teu gosto no beijo. E gosto do beijo que permanece quando acredito que você não foi, ainda está.
Gosto do beijo
Gosto quando minha boca toca a tua e nossos olhares se cruzam em meio aos beijos que surgem. E gosto do gosto que sinto quando o sentido que prevalece no beijo é nosso doce paladar. E gosto do doce do beijo que me aquece e me faz esquecer do mundo fora e fico eu dentro do desejo. Gosto do desejo de sentir teu gosto no beijo. E gosto do beijo que permanece quando acredito que você não foi, ainda está.
[2006]
Nos caminhos que percorro
Deixo pegadas em pedras
Refugiei-me em teus braços
Abro os olhos
Uma nova imagem
Realidade que parece estar atenta
A um outro trilhar
Entreguei-me
Vida incomensurável
Obtive respostas não esperadas
Sobre mim mesma
Saborosas de saber
Estrelada em alma
Transformei-me em água
Despi-me
Rumo ao nada
Quero tudo
Pegadas
Nos caminhos que percorro
Deixo pegadas em pedras
Refugiei-me em teus braços
Abro os olhos
Uma nova imagem
Realidade que parece estar atenta
A um outro trilhar
Entreguei-me
Vida incomensurável
Obtive respostas não esperadas
Sobre mim mesma
Saborosas de saber
Estrelada em alma
Transformei-me em água
Despi-me
Rumo ao nada
Quero tudo
[2007]
DENTRO
E aquelas palavras, que deveriam soar como uma brisa suave, tiveram o efeito de um punhal em seu coração. Sentada em seu colo, chorava sentido... Sabendo que aquele era o momento do fim do que viveram, embora fosse o início de algo que ainda não compreendia bem. No último mês chorara muito por eles. Sabia que estavam irremediavelmente juntos, mas sua ausência lhe doía os ossos. A ruptura acontecera justamente por um afastamento súbito dele que fizera com que ela não suportasse continuar.
Mas procurou-o novamente. Saudade, angústia. Algo na garganta ainda para ser colocado na veia daquela relação. Fim... Era o fim e lhe doía. O amor dele lhe doía. Porque era a confirmação de que tudo que viveram fora verdade. A verdade dói. A mentira consola, ampara. Facilita o caminho.... Como seguir sabendo que ficara para trás um amor? Por que não ficaram juntos? Será que o amor que ele jurava era na verdade uma mentira para confortá-la? Perguntas... Há momentos sem respostas para perguntar. Mas era hora de continuar, pois o amor declarado naquele instante colocara um fim naquela história. Era uma declaração de eternidade, de subjetividade do contato. Algo maior os envolvia. Laços que unem mais do que o toque...
“E milagrosamente ela compreendera tudo sem que falassem. Ninguém saberia que um dia tinham se querido tanto que haviam permanecido mudos, sérios, parados. Dentro de cada um deles acumulavam-se conhecimentos nunca devassados por estranhos. Ele fora embora um dia, mas não importava tanto. Ela sabia que entre os dois havia ‘segredos’, que ambos eram irremediavelmente cúmplices. Se fosse embora, se amasse outra mulher, iria embora e amaria outra mulher para partilhar-lhe depois, mesmo que nada lhe contasse”. Clarice Lispector – Perto do Coração Selvagem.
[2007]
Mais que qualquer encanto
Meu tempo demora. Para o amor, para a dor, para acontecer uma paixão e para ela ir embora. Sou distraída para as horas. Mas extremamente concentrada para o que encanta a minha Alma. Quando isso acontece, você terá a nítida impressão de que é Ela que anda, não meu corpo. E esse movimento pode ser encantador ou devastador, se é que falo de duas coisas distintas. Se você não for capaz de deixar-se devastar pelo encanto, ou não acredita nisso, saia da minha vida antes de fazer parte da minha estória. Por favor. Pois meu tempo demora. E eu não vejo encanto na dor. Não acredito que ela ensina algo. A dor provoca feridas difíceis de curar. Deixa marcas que permanecem mais que a minha risada com a melodia de palavras inventadas num domingo à noite. Mais intensas que o cheiro de sândalo da tua declaração de amor num domingo de manhã. Amargas. Diferente da água doce na boca pela espera de um beijo nosso debaixo da chuva. E suas deformidades matariam a perfeição daquelas flores. Visíveis. Mais que a ternura do meu olhar. Demoradas. Mais que o tempo. Devastadoras. Mais que qualquer encanto.
[2009]
O desconhecido da Vida
Não sabia mais o que era. Seus pensamentos misturavam-se à fina flor dos dias e das noites. Seus movimentos eram a extensão do mundo. Movia-se com a delicadeza e força dos livres de espírito. E não saber mais o que era sagrava-lhe a infinita possibilidade do tudo. Mesmo que este ainda não existisse.
Flutuava, plainava leve e solta sobre os acontecimentos. A respiração era a única aproximação com sua raça. Os vis de coração nao a tocavam mais. O seu encontrava-se puro como o orvalho que acaba de se formar e escorrega pela folha como uma criança recém-criada.
Não via a maldade. Esta lhe escapava perante as cores do mundo. Adensava-se suave a cada movimento na certeza de integrar-se ao todo. E o tudo, antes inexistente, começava a escorrer junto ao sangue das veias.
Não era felicidade. Era movimento. Tornara-se uma desconhecida. Desconhecida aos mais próximos a si. Até a si mesma. E era ali que concentrava-se a possibilidade do tudo. Do desconhecido da vida.
[2007]
ohleps E spelho
Sabe dizer obrigada e também sabe dizer Adeus.
De vindas e voltas.
De caos e bonança.
De paixões intermináveis e finitas.
De outros amores.
De brigas e pazes e vidas passadas.
Cultiva os pequenos prazeres.
Gosta do mar, de asfalto e da lua.
Responde a estímulos musicais com encanto.
Combina a janela aberta ao edredom.
Com os pés descobertos.
Sabe bem por onde caminhar.
Ao lado do imprevisível, é claro.
Entre passos e revoadas.
Ao lado do imprevisível, é claro.
Sabe bem por onde caminhar.
Com os pés descobertos.
Combina a janela aberta ao edredom.
Responde a estímulos musicais com encanto.
Gosta do mar, de asfalto e da lua.
Cultiva os pequenos prazeres.
De brigas e pazes e vidas passadas.
De outros amores.
De paixões intermináveis e finitas.
De caos e bonança.
De vindas e voltas.
Sabe dizer Adeus e também sabe dizer obrigada.
[2008]
Quase
Estou chegando à uma conclusão:
sou uma mulher de quase.
Eu sou quase legal.
Quase fui a namorada.
E quase vivi um grande amor.
E quando eu quase acreditei
Quase me lasquei!!
Foi quando percebi
Que não sabia quase nada.
Sobre quase tudo que vivi.
E quase perdi a esperança.
Mas quase sempre surge algo novo.
E quase nunca deixo de acreditar.
Quase...
[2008]
Anda Indo
Anda sem palavras. E sem pensamentos. Anda com os olhos bem abertos. Arregalados. Anda de mãos dadas com o tempo. Anda muito... Muito sei lá. Não, não quer saber. Não explique. Não justifique e, se possível, atravesse a rua quando a vir andando por ela. Obrigada. Anda menos educada e falando mais verdades. As suas. Andou abraçando verdades alheias. Mas elas eram as principais mentiras. Anda quieta, calada... Anda descobrindo coisas e esquecendo outras. Anda querendo esquecer. A respiração mantém seu sangue circulando. Ele anda. Por todo seu corpo. Percorre suas veias e renova. Então anda. Anda meio sem saber o caminho. Mas, afinal... algum dia a gente realmente sabe?! Anda indo. Não sei se volta.
[2005]
FEIJÃO
Dê-me Feijão, forte alimento
E Arroz, um ótimo acompanhamento
Batata e bife, formam o Prato Feito
Ninguém pode colocar defeito
Acrescente toucinho, costelinha de porco
Frango, e o que mais aprouver
Para gringo pode parecer piada
Mas terá, assim, a famosa feijoada
Feijão preto, marrom, ou branco
Quentinho, cozido, ou até em salada
Feijão é o sustento de um povo que agüenta
É o prato principal do brasileiro
Mata a fome daqueles que pouco têm
Amado e adorado no País inteiro
É o pretinho que alimenta e faz bem!
[2007]
Às quartas-feiras
Envolvida na pressa cotidiana, nos compromissos inadiáveis, em trabalhos intermináveis. Na correria de ontem vejo pelo retrovisor tantos que ficam para trás. Desvio a atenção do espelho, que mostra o avesso do avesso da cidade e concentro-me no agora. Acompanhada pelo trânsito lento a pedir um pouco mais de calma. A vida não pára. Eu também não. Momentos, histórias, conquistas, sabores. Experimento. Insistente de que o encontro é inevitável, o amor é possível e o amanhã será melhor. Outros momentos, histórias, conquistas, sabores. Aqui há possibilidades para isso? Insisto por mais calma. Rotina agitada, idéias confusas, retina cansada, ideais desfeitos. A espera pelo encontro de olhares com a paz. De uma forma ainda discreta pode ser. Com uma certa deselegância. Fora das grandes ocasiões não há etiquetas. Pode ser. Em meio às tantas informações da cidade, café cigarros e serenidade. Em passos e [des]compassos, traçando caminhos abstratos no concreto. Às grandes ocasiões, que pululam com a força da grana em meio a feia fumaça que sobe, respondo: - Prefiro as quartas-feiras.
[2010]
Presente [oni]presente
Foram saindo. Um a um. Alguns sem dizer Adeus. Outros, mais entusiasmados, aos gritos. Outros, mais discretos, à francesa para calar qualquer diálogo. Foram sim. Uns por escolha, outros por imposição e outros sem senões ou porquês. Só foram. Embora assim como quem não tem mais nada para dizer e não acrescenta mais nada com o que diz. Aí percebeu: já perdia de vista o passado. O presente se impôs onipresente, novinho em folha. As mágoas tomaram dias e dias de chuvas até se deixarem levar pelas corredeiras e se perderem num rio em que as lamentações são apenas os murmúrios das águas. Os rancores, mais ferozes, ficaram isolados e não foram mais alimentados. Acabaram comendo uns aos outros até que nadica deles sobrasse. As discussões cessaram quando o Silêncio chegou - imponente - com uma mudez de fazer ouvir o mais calado dos corações. Ali, a assistir a esse espetáculo da existência, ficou sem palavras para explicar e sem explicações para entender. E então, o dia fez-se.
[01.07.2007]
Sagrado
Muito pior que ver desmoronar um castelo é a quebra de um santuário. Quando as divindades espatifam no chão. Uma a uma em suas vestes sagradas sangradas pelo estúpido choque. Pelo desastrado contato do toque humano. Acredito ser assim que surgem as lágrimas de sangue nas imagens dos santos. O pressentimento da queda. Plantadas em alguma alma, são de repente arrancada pelas raízes. A sangue frio. A quebra de santuários tira o chão. É a descrença na fé. As gotas do sangue sagrado latejam na alma. As feridas que não se fecham e não se curam. Não nesta existência. Pretensão humana tocar os deuses e aspirar seu ar. Não conseguimos sustentar-nos em tal altura. Que aos nossos pulmões é tão inebriante. Descemos. Em quedas reticentes e renitentes. Assim dá-se o desastre de um santuário. Enxergar que no humano, nem tudo que habita é sagrado, nem por amor. Sentir o real sentido do profano dentro de cada um de nós.
[2011]
Selvagens em particular
Preciso (o) passo pra portas abertas
Precioso encontro com o inesperado
herméticos sonham em formas concretas
misteriosos caminhos são o inexplicável
coragem corta seus mistérios mudos.
Segredos súbitos de caminhos cruzados
secretas veias de ser (o) desconhecido
coração abstrato de aprendizado
selado por uma eternidade sinestésica
eternos cúmplices na vida marcada
foram selvagens em particular
civilização discreta do amor.
[2012]
Sede
E como água que escorre lentamente nas entranhas de uma nascente, desfaz-se de si para deixar sair o que punge e não brota. Escorrer com as nascentes para ver brotar verde ao pé da serra e, quem sabe, uma flor. Muitas vezes espera que um vulcão revolucione novamente sua alma de tal forma que será impossível conter por tanto tempo o ardor das lavas. Mas ele vem morno e só evapora o arrepio que sente dentro, calmo e latente. Um pulsar ritmado de quem não quer mais tempestades e sorve com tranqüilidade o copo d’água que já basta para matar sua sede. Mentira.
[2012]
e eu quis. eu quis falar. eu quis te olhar. mais. teus olhos. quando mais te olhei é quando não me viu. eu passei. voltei. fiquei e fui. você na minha frente, você ao meu lado. e eu tanto quis te encontrar. e quando eu pensava em te encontrar eu só queria te abraçar. eu tanto quis ficar. eu andei. fui em frente, esperei. voltei. fui embora. vivi, amei, mudei os quadros de lugar. vou viajar. encontrei você e não consegui encontrar. tudo foi tão rápido que não sei. teu olhar está mais sereno. tua barba mais branca. você continua lindo e eu nem sei como foi meu olhar. porque eu não ouvia, eu não via, eu tremia. nos despedimos e fomos, novamente, para lados opostos. até a próxima.
[2012]
Devaneio
descortinada pela coragem
corre na noite escura
rubra pelo sangue quente da face
solta pelo chão macio na mata
na busca do que não se vê,
mas se sente
silente no olhar e pulsando coração
ciente do devaneio de ser somente
livre veia corre o sangue
boca úmida e sedenta vida
ventania rasga a pele
acelera o [des]compasso
melodia da madrugada
que em instantes descortinada
revela sol que brilha
O dia nasce.
[2006]
Backbeat
I’m not that one who walks pursuing lands
I’m that one who desires the freedom of the winds
And I give up the memories of the past
So that life can flow again
My mind is emptied constantly to fill itself of gifts
But in my heart I bring the purest love
and most ingenuous pains that I’ve already lived
I don’t follow the constant hunt of victories
I’m that one who walks unpretentiously
Bumping into luck and warding off from misfortunes
And on this way full of slopes
Among straight bend lines of fate
I see flowers blossoming on the road
Being born in the backbeat of the same stars
That traces the freedom of my way
I’m not the one who loves at random
I live love like I breathe the air
I’m a painter inspired by this oxygen
and the drawings that I compose with inks and colors
Registers the soul of this breeze in my face
I’m for the one who doesn’t fear the storms
And appreciates the calmness that comes later
With a sky illuminated by stars
And a soil renewed with fertile land
I don’t follow the constant hunt of victories
I’m that one who walks unpretentiously
Being surprised at each step
By the news that the world offers
And my road is filled by new flowers
Born in the backbeat of the same stars
That traces the lightness in my way
[2013]
rasga delicadamente cada uma das peles que traz sobre o corpo
até encontrar as vísceras latentes, quentes, pulsantes
deixando-as expostas para que respirem, fluidifiquem-se de mar, renovem-se
volta para dentro e em espasmos vai acalmando a alma
intocada, mas refletida nos espasmos viscerais
revoluciona uma necessidade de arder e rasgar
rasgar as vestes, as peles, as carnes suas
[2013]
Quero dedilhar tuas costas, fazendo música em teu corpo com o silêncio do toque. e ouvir teu pulso deitada em teu peito e escorregar minha mão para te fazer tremer. Gosto do jeito que geme quando goza, de como se contorce em êxtase e cai ao lado do meu corpo, entregue. escorregar de leve a ponta dos dedos pela lateral do teu corpo. te dar colo. te fazer carinho até você querer que eu pare. não queira. pede pra eu ficar. pede para eu não te esquecer. pede para me encontrar de novo. Quero dedilhar tuas costas, fazendo silêncio em teu corpo com a música do toque. e, com tua cabeça em meu peito, te deixar ouvir meu coração. tua mão escorregando dentro de mim para me sentir pulsar. gosto do jeito que goza, de como se contorce em êxtase e cai ao lado do meu corpo. entrego-me. escorregar de leve a ponta dos dedos pela lateral do teu corpo. te dar colo. te fazer carinho até você querer que eu pare. não queira. pede para eu voltar. pede para eu não te esquecer. pede para eu te encontrar. De novo.
[2007]
Sabe aquele dia em que você acha que se a burrice tivesse um nome esse nome seria o seu? Pois é. Todo mundo sente-se assim um dia na vida. Quem não se sentiu assim não teve a sorte de dar um pulo na existência. Aquele pulo que faz você passar de um ponto a outro em uma só tacada, na velocidade de um trem bala. Claro que para isso você nadou um oceano, mas com certeza ganhou a força de Hércules com essa jornada. No final, quando percebe que tudo isso só pode ter acontecido por pura burrice é um alívio. Porque é nesse momento que acontece o salto. De repente você sente a inteligência infiltrar-se novamente pelos seus poros, você percebe-se novamente como um ser pensante. Infinitas possibilidades abrem-se a sua frente e é como se o mundo voltasse a existir. Não importa mais se a burrice tomou conta do seu ser por um determinado tempo, que ele tenha durado uma eternidade. Você voltou. E a sua volta determina novamente que você resgate a sua identidade, seu nome, sua inteligência e sua capacidade.
Mas a burrice à qual me refiro tem porto certo. E uma vez ou outra desembarcamos nele e ficamos lá, em suas margens, nos achando seguros. O problema, é que é nesses momentos que estamos mais à deriva. Encontrar-se à deriva, no entanto, não é de todo ruim. Um barco à deriva sempre encontra novos horizontes. Por isso é tão contraditório nesses instantes decidir abandonar esse barco. A sensação é de segurança e aventura ao mesmo tempo. Quem já se apaixonou sabe. Sim, é dela que estou falando. Da paixão. Quem não acha que paixão é uma mistura de segurança e aventura? A mais doce contradição e mais perdoável burrice que pode acontecer.
[2009]
Um nó na garganta, um suspiro de alivio, uma risada, um arrepio, um choro, a respiração suspensa e a paz de uma longa inspiração. Um sorriso de lado, um olhar atrevido, enviesado ou envergonhado. Um tremor das mãos, um beijo, cheiro, uma canção. Um coração pulsando, um colo, um abraço, o sono tranqüilo ou uma insônia em noite de lua. Uma cor, uma promessa, uma esperança, um caminho. Ardor, dor, sonhos, encantos, encontros. Um silêncio, uma ausência presente. Nada que se pense. Tudo que eu sinta.
[2009]
E agora, José? Pois é... A luz apagou. Mas eu tinha outra lâmpada, sabe. Cá dentro. Uma idéia. E outra e outra. Além de um vagalume que pisca e faz a noite parecer discoteca. Para dentro. E sigo dançando. Dançar ao som da música da vida. Enquanto estiver viva eu vou. Pra onde, José? Não sei. Pode me chamar de José, Joana, Tereza. Mas meu nome está cá dentro. Independe de seu chamado. Ou do meu. E meu nome hoje é Vida. Não é fácil, sabe? Porque o meu nome carrega histórias, minha alma ainda carrega ferida. E eu aprendi que sou responsável pela minha dor e pelas minhas lágrimas. Sou responsável pelas minhas escolhas e pelos meus companheiros de caminho. Mas também sou responsável pela minha alegria e felicidade. Não tenho mais tempo, não tenho mais tempo. Chega um tempo em que vida é uma ordem. Vida apenas, sem mistificação.
[2008]
Sons, cheiros, gostos, gestos. Rostos, sorrisos e segredos. Às vezes lágrimas. Algumas. Às vezes. A vida encher-se de cor e movimento. Dançar. Comemorar silêncios. Chuva, mar, vento. Ah, mar. Sagrado. Às vezes gosto de estar só. Não ser. Só estar. Ser mesmo sem estar. Você acredita na lua quando não a vê? Outro coração ainda aguarda o meu ouvido.
[2005]
Oração
"Quero uma oração que seja pessoal, não herdada." (Jorge Luis Borges)
Que eu conheça lugares diferentes e veja outros, que já fazem parte do meu caminho, apresentarem-se novos. Que seja apresentada a sabores, mesmo os que já conheço, sob um olhar diferente do meu. Que eu descubra novos aromas, novos amores, novas cores, novos sons. Entregue ao imprevisível, compartilhe sorrisos e risadas, súplicas e choros. Sempre que for preciso, que tenha o direito de chorar. Deixar as lágrimas correrem mais soltas para ajudar na limpeza da alma. Mas que seja garantido o direito de sorrir muito e rir também, inclusive dos problemas. Que eu perca o controle que nunca tive sobre pessoas e situações. Aceite mais os erros, meus e dos outros. Abra espaço para o perdão, meu e dos outros. E, se sofrer, que seja acolhida. E possa acolher também sofrimentos que não vivo. Sem julgá-los. Renuncio ao medo, exponho a alma e curo as feridas. Espanto fantasmas para descobrir pessoas. E, se reencontrar outras, que seja sempre por um novo olhar. Que tenha a graça de conhecer outras realidades, viver novas histórias, entrar em outros mundos. Com pausas na busca para que eu reconheça a paz. Incorporada na transformação, morra e renasça constantemente, mas também sinta o eterno. Que tenha a dádiva de ver que o que há de mais valioso para se viver reside nos “pequenos” momentos. E tudo isso, sempre, com uma Fé tão enorme que não a reconheça.
[2008]
“ Qual a primeira palavra que diria depois de cinco anos sem falar”. Boa a pergunta. Acho que foi dita em uma dessas séries de TV. Como não assisto à TV não posso precisar qual. Mas, tente responder à pergunta. Fiz duas interpretações para o tema. A primeira - e ao meu ver a menos provável - é que a pessoa em questão estaria sem falar absolutamente nada há cinco anos? A segunda poderia ser a primeira palavra a se dizer a uma pessoa que não se encontra há cinco anos. Optei por esta. Percebi que não tenho em minha vida uma pessoa que eu lembre depois de cinco anos sem falar. Então reduzi um pouco esse tempo para um ano. Sim, um ano eu tenho. Imaginei rapidamente a cena. Frente a frente, olho no olho. Nada me ocorreu. Nenhuma palavra. Insisti na cena. Continuei firme o pensamento. Nada. Um belo termômetro. Qual a primeira palavra que diria depois de cinco anos sem falar?
[2010]
Eu não gosto das segundas. Elas deveriam ser a extensão do domingo. Segunda-feira tem gosto de maresia. Ainda se sente o cheiro do mar morno do entardecer do domingo, quando as ondas batem preguiçosas sobre as pedras. Mas não é por isso que não gosto das segundas. É porque enquanto o mar insiste latente em minhas narinas e em meu paladar, o mundo pede pressa. Aliás, o mundo pede cada vez mais pressa. Pra onde vocês estão correndo tanto, minha gente? E eu estou um pouco cansada dessa mania de andar ligeiro que pegou o mundo. Há pouco tempo descobri que o meu tempo não é deste mundo. E parei de me culpar por não acompanhar passos acelerados. Na época em que morava perto da Serra da Cantareira, eu pegava o carro e ia para lá nos momentos em que a pressa espreitava o meu cangote. Ninguém nunca que soube onde eu estava nessas tardes, geralmente eram tardes. Não que eu seja uma amante da natureza, apesar de gostar mais do mar do que de gente. Pronto. Confessei. Estou cansada de correr para não sei onde atrás de não sei o quê. Que mundo besta. E o mar está lá. Uma entidade a parte. Indo e vindo com suas ondas. No seu ritmo. Esvaziando-se nas noites de Lua Minguante, murmurando nas noites de Lua Nova, rindo-se nas da Lua Crescente para a efusão de todos os seus aromas e humores na Lua Cheia. Ou não. Não sei. Estou longe do mar. E sinto.
[2010]
Eu não consigo mais fazer poesia.
É preciso uma dose grande de loucura para isso.
Precisa de ausência. Da falta da realidade comum.
Do vazio transbordante.
É preciso uma densa leveza para fazer poesia.
Atrapalhar-se no vôo, desviar o caminho, perder-se
É preciso permissão maior para isso. Além da compreensão.
Entregar-se. Com os olhos abertos no escuro. Tatear o ar.
Transformar o abstrato em realidade palpável
Suavizar o concreto, alisar, lamber.
Precisa de coágulo e hemorrágica sangria.
De sangue espesso e oxigênio rarefeito.
É preciso reconhecer a dor que sente como uma amiga antiga
Sentar-se ao seu lado e olhá-la com doçura
Rasgar o verbo delicadamente, machucar a palavra com ternura
Arranhar a garganta em um grito contido
Ouvir o silêncio que nem se sabia existir
Sentir a presença física do invisível
É preciso abandonar-se da existência
E existir em níveis incompreensíveis, mas comum a todos
É. Não sei mais fazer poesia
É preciso loucura demais para isso.
[2009]
Lágrima Poetílica
Translúcida e treslouca
Escorre pela noite clara e alta
Lenta e latejante
Até alcançar o espaço entre os lábios
Tão doce ao paladar que se repete
Mistura-se ao vinho rubro em goles secos
Juntos percorrem um arrepio
Na dança de lágrima etílica em veia bailarina
Coloca o corpo inteiro em dança
Com olhos embriagados de lembranças
Deixa escorrer. Deixa. Para perder-se.
Possível encontrá-las somente em delírios da madrugada
Ou em cartas seladas com tinta quente e cobre
Algo entre a terra e a ferrugem.
[2001]
Nonada
Ánima Ânima
A mim o que é meu fugia
Encontra no alento do desconforto a palavra inventada
Fragmento à revelia que escapa em desatino contido
Sussurra a resposta mais improvável
Provavelmente se recria
Sem se pronunciar
No caos, fere o previsível
Aniquila o hermético obtuso da certeza
E abre espaço para as asas
Do contido imprevisível
Nasce a redenção
Do óbvio imaginável
A mostrar o tudo
Disfarçado de nada
Didático e meticuloso
Para não espantar sua grandeza
Eis que se revela o nada maior
Vazio transbordante
do tudo que em hora qualquer se apresenta
Aurora descoberta
Numa consecução do sign[o]ificado
Traduz-se o uno
Não tudo ou nada
Nem tudo e nada
Tudo Nonada
[2004]
Entre encontros e bebedeiras
Entre chuvas e baladas
Fui te vendo noites inteiras
Fui te encontrando pelas estradas
Quando ao ponto da chegada
De um encontro verdadeiro
Descruzamos os caminhos
Por medos tão mesquinhos
Seguimos vias paralelas
Sempre a espera de um retorno
Na cabeça o arrependimento
No coração o eterno sonho
Arrependimento revolucionado
Por um encontro inesperado
Que coloca de volta o passado
Em um presente escancarado
De dois dementes apaixonados
Que entre a lua e a rua
Entre os carros e os postes
Carregam suas almas nuas
Não há como fugir da sorte
E envolvidos novamente
entre beijos adocicados
esquecem-se por momentos
do antigo medo do passado
Pela paixão que remexe
As vísceras e a alma
De quem encontra no outro um abrigo
De quem sente no outro a calma
Voltam a sonhar os sonhos reprimidos
Mas deixam novamente o ser amado
Para cair no ardiloso e sofrido
Desespero de não querer ver cultivado
O amor pelo outro cultuado
Eis que surge como recado
Que mais uma vez na rua em lua branda
Deixar-se entregar a esta serena ciranda
E dançar esta valsa de amigos enamorados
É mais virtuoso que qualquer abrigo
É menos perigoso que qualquer pecado
Dos corações que se tocam
Das almas que se vêem além
Dos beijos que sempre existiram
E Sempre existirão
Vão de mãos dadas para o nada
De mãos dadas com os pés no chão
Que se apresentam mesmo que por diferentes estradas
Sentindo as palmas do outro nas mãos
Mas chega uma hora
Que a ausência dos corpos novamente vigora
Maldita seja a matéria
A célula, o tato, o toque
Que torna necessária a presença
E que torna a saudade e a ausência
Desespero e um eterno chamado
Bendito o reencontro
E todos aqueles tremores
Quando sentimos o outro
Disfarçando no corpo os ardores
Tudo está retomado
Matéria. Etéreo é passado
Voltamos às bebedeiras noturnas
Voltamos ao mundano tratado
Dos encontros apaixonados
Dos beijos escancarados
Quando novamente a ausência retorna
E é a espera o tormento
O tormento é o passado
Maldita seja a lembrança
Maldita a saudade, a esperança
Desgarro do ninho meu laço da morte
Derramo o sangue que antes era vinho
Que embriagava nossas noites de amores sedentas
Que agora colocaram em minha vida tormentas
Sangue quente que corre meu corpo
Do teu ar ainda se alimenta
Para na veia continuar vibrando
Para meu coração continuar pulsando
Quando vejo novamente você de volta sorrindo
E sinto você de volta abrindo
A porta da vida e fechando o que outrora era chaga, ferida
Amor nunca morre, renasce , resplandece
Sobrevive, aquece e nutre a luz que circula
E renova no corpo as células todos os dias
Sobrevive sempre da eterna alegria
Do eterno retorno e da interseção das almas
Que é fato, estarão sempre juntas
Escritas nas palmas
Amor é sempre reticências
Ponto e vírgula
Dois pontos
Mas nunca ponto final
É sempre amor
Sempre fato, nunca fatal.
[2005]
Quando o beijo não acontece
De repente um forte abraço surpreende
Beija minha face com fervor e me olha com carinho
Meus olhos se fecham e o nosso silêncio envolvente
Mostra que novamente cruzamos os caminhos
Reconheço em seu olhar o meu preferido de antigamente
Mas mal posso ver pois os meus quase se fecham
Vens para beijar minha boca ardentemente
Mas viro meu rosto antes que encontres meu lábio entreaberto
Nossas bocas não se acham mas nosso silêncio ainda grita
Estancamos nossos encontros e deixamos à míngua o desejo.
Um último olhar deixa claro que não é ofensa
Que o beijo não aconteça, mas o amor permanece
E o silêncio que nos envolve diz mais que qualquer sentença.
[2007]
Nosso senhor protetor das cabeças carecas
Colocai um pensamento de luz para cada fio perdido
Que ainda reste um fio de esperança
Que a raiz das virtudes não se feche para sempre
Para que os pensamentos possam evoluir
Se a evolução, afinal, de alguns homens
É não ter um fio de cabelo sequer
Que tenham mais amor é paz no coração
E que a compaixão brote em sua alma
Inclusive pelo cabelo perdido
E que a falta de irrigação capilar não atormente
E não atrapalhe suas ideias e sentidos
Amém
Ao careca, com amor
Nosso senhor protetor das cabeças carecas
Colocai um pensamento de luz para cada fio perdido
Que ainda reste um fio de esperança
Que a raiz das virtudes não se feche para sempre
Para que os pensamentos possam evoluir
Se a evolução, afinal, de alguns homens
É não ter um fio de cabelo sequer
Que tenham mais amor é paz no coração
E que a compaixão brote em sua alma
Inclusive pelo cabelo perdido
E que a falta de irrigação capilar não atormente
E não atrapalhe suas ideias e sentidos
Amém
[2005]
Os braços e pêlos
As formas, o peso
Conferem uma densa cor do mar em teu corpo
Teu rosto marcado por sobrancelhas grossas
Que gosto, que gostas
Arrepio quando roças teus cílios em meu seio
Os olhos, cabelos
O corpo santo, denso
A cor: imensidão azul, amor
Anjo pacificador
Aquieta a dor, Aquietador, Aquieta, Eu quieta...
O olhar profundo e calmo
Voz rouca e envolvente
Baixa, doce, estranha e forte
A alma limpa e alva
O cheiro de malte e malva
O gosto, mistério.
[2005]
Sinestesia
Tua mão em meu corpo, teu rosto e teu jeito
Teu gosto teu cheiro, um beijo em meu seio
Tua cor mais profunda, na íris que brilha
Um olhar quando acorda, com jeito moleque
Tua face serena, tua pele morena
Sobrancelhas e cílios e boca molhada
Sorriso de lado e suspiro profundo
Preguiça e o mundo, lá fora esquecido
Aqui dentro aquecida, enlaçada em teus braços
Pernas trançadas, lençóis confundidos
Falta de ar, vidraça embaçada
Em sonhos e encantos e densos gemidos
Tenho-te agora, em mente e palavras
Neste momento, eternizado
[2006]
Coreografia
Percebeste, não mais que sentiste
Que a presença domina o ser e contagia
A matéria que pulsa enquanto a rotina.
Retina retinta, a palavra que é só eco no ouvido que rói
Desconexo. E decifra aquilo que sente
Do presente que entende que a vida continua
Independente do que aconteceu com a gente
Anestesia. Como uma morfina
Esqueço que um dia você rompeu minha vida
Com palavras que não são minhas
Desconexa agora é minha atitude,
Mas conexa um dia senti tua língua
Teu idioma em minha boca fluía
Hoje, neste dia quente
Lembrei-me de você, de suas palavras e de nossa magia
Enquanto o sol volta a brilhar neste mundo
Como se me faltasse o ar
Recordo cada passo da sua coreografia.
[2005]
Artesanato
Molda-me em suas mãos de artesão
Percorre meu corpo de fato,
cada linha, cada expressão
Abstrai o mundo e refaz-me concreta
Nosso amor é como artesanato,
cada etapa, uma atenção
De quem forja em seixo, anis estrelado
Carrega consigo uma fórmula secreta
De dedicados amantes
Dos toques mais delicados
Pacientes com o tempo para alcançar
Uma obra de infinita beleza
Com a sutileza do tato
Do toque das mãos
Sampa Cara e Coragem
Cidade de contraste étnicos, financeiros, culturais, São Paulo é marcada pelas diferenças. Seus prédios, suas atividades, seu cotidiano e seus moradores: pluralidade. Cidade de todas as raças, povos, de todas as cores. Informação, dinheiro, emprego, trabalho. Desemprego, desigualdade, marginalidade: divergências! Cidade que pulsa em ritmo frenético e acelerado. E que restringe aos olhos, preocupados e ansiosos em acompanhá-lo, momentos contemplativos, de descanso, de encontros e de concordância entre tantas informações. São Paulo abriga centenas de personagens de diversos pontos do País, com as mais diferentes histórias dos mais diferentes sonhos. Sucessos e fracassos. Vitórias e derrotas de quem nunca cansa de lutar. Lutas e batalhas de quem nunca cessa sua busca. Personagens que garantem os alicerces dos prédios, que pavimentam as ruas, que constituem todos os outros órgãos do coração financeiro da metrópole. Cidade que inspira tanta garra e guarda também os tesouros dos corações mais esquecidos. Personagens que se excluem - ou são excluídos - da corrida cotidiana de São Paulo pela eterna modernidade e enriquecem seu caminho com um outro tipo de olhar, diferente da corrida exclusiva pela grana, pela fama, pelo poder, pela informação. Carregados pela sua própria alma, ilustram em poesias, em projetos, em arte, em fotografia, em resgates, as flores, as raízes, as nascentes e os vales da poderosa gigante de concreto. Tesouros escondidos apenas a olhos que não se permitem enxergar, pois estão em todas as suas esquinas, em todas as ruas, em todos os prédios. Provavelmente, em nossa pressa cotidiana, esbarremos em muitos deles diariamente. Mas, a única atenção que nos permitimos, é um pedido de desculpas, um obrigado ou um xingamento. Ou ainda, o medo. Com os vidros cerrados e os olhos no farol que não abriu, no ônibus que ainda não chegou, no horário a cumprir, esperamos, corremos. E perdemos a oportunidade de contemplar tudo o que está a nossa volta. O feio e o bonito, o bom e o mau, a guerra e a paz. Tudo isso refletido em tantos rostos, tantos gestos e e tantas histórias que habitam também o mais profundo de cada um de nós.
Clarissa Cor (2006)
[2009]
Café e Calmante
Café e calmante. E o coração voa lá fora porque teima em procurar um lugar. O corpo fica. Embriagado de café e calmante. A contradição persiste. Não gosto dos genéricos, prefiro o particular. O coração perdeu-se inebriado de éter. Subiu até se perder de vista. Quis altura, quis o vôo e não soube voltar. Acostumou-se com outros ares. Aqui, pras bandas da cidade, ataca-lhe taquicardia. Então, deixa voar. O corpo fica. Café e calmante. Hoje vou ser justa comigo: vou fazer o prazer com minhas próprias mãos. Vou sentir o carinho que não recebi quando te pedi. Vou escutar as palavras de compreensão, de afago, de acolhimento que eu mereci e você não disse. Vou ver meus olhos transbordarem de ternura mesmo sem o espelho para refletir. Vou compreender minhas intolerâncias e acatar minhas incertezas. Vou me fazer companhia, cuidar de mim e me permitir o sorriso que não recebi. Vou gargalhar das minhas piadas, vou chorar de rir das minhas feridas e lamber o sangue até secar. Vou ser selvagem. Não vou me civilizar, nem dizer palavras educadas. Não, não vou ser polida. Vou ser inteiramente as minhas faltas, as minhas ausências, as falácias e a vastidão da minha alma. E não quero mais saber se alguma dor te dói. Vou rir da tua dor até morrer-te em mim. Vou zombar do teu nome, esse que você fez por merecer. Vou dar o braço a torcer e reconhecer a tua feiura. Sim, não estou com coração. Ele voou e me deixou aqui. E quando ele encontrar meu lugar, volta pra me buscar. E sairemos voando em pulsos, com movimentos ritmados e voluntários, com rumo definido. Nesse dia, você vai saber, porque o céu vai pegar fogo e a lua, avermelhar.
[2009]
Porque há desejo em mim, é tudo cintilância (hilda hilst)
Multiplicar poeira de estrela num esfregar de olhos a corar face quente-rubi. Rubor de acordar desarrumada. Café, pé, pão, chão e assoalho. Passos que rearranjam um caminho coral e alga marinha. Quente, frio. Quente, frio. Carmim e azul. Sangue-ar. Rumo de alvoroços silenciosos, ruidosos sussurros, palavras amenas e não-respostas que (às vezes) perguntam. [Es]preguiça num gemido-suspiro que arranha a garganta e tateia o ar. O esfregar de olhos espalha a poeira estrela dourada pelo vento-janelaberta. Coração? Traz no peito-pulso. Baixinho. O suficiente para ouvir que no pulso-veia corre canção, escrituras, liturgia. Desenhos com poeira de estrelas em pergaminho. Corre sangue-rubi da face quente-rubra. É tempo de frio. Azul e Carmim. Rosto corado revela quente-dentro. Amanheceu.
[2007]
E eu te enxerguei
Devorada pelo teu avesso
Poropeledepontacabeça. Por dentro.
O lado negro da tua luz
A claridade da tua sombra
As vísceras da tua alma
O teu sangue na extensão completa do corpo
Decorei teu verso e escorri em lágrimas
Voltei como água na tua sede
Matei tua fome com a minha carne
Mergulhei na acidez do teu estômago
Enlouqueci entre teus neurônios
Choques das tuas desconexas conexões
Inalei o ar dos teus pulmões
Para tomar fôlego
No compasso do teu coração, orientei teus passos
Sai de mim para me procurar em ti
E não encontrei...
[2008]
Não conseguia esquecer. O que lhe atormentava é que não eram as tormentas que não esquecia. Não esquecia o gosto, o cheiro, os pêlos, a boca. O olhar. Mas tocava-lhe a lembrança de uma forma que atormenta. Com uma cor amarelada, parda, do que já é antigo. Cada vez mais atrás de tudo que vivia hoje. Pensava que chegava a ser ridículo não conseguir esquecer. E era. Seus pensamentos se transformaram em uma série de divagações ridículas, quando não... bem, melhor não entrar em seus pensamentos com muita profundidade. O fato é que sabia quão ridículo era tudo que se passava em sua cabeça. Então com a consciência de sua ridícula consciência, disfarçava pensamentos. Para si mesmo e para o mundo. Disfarçava com opiniões encontradas em orelhas de livros, páginas de revistas, horóscopos. Sim, seus pensamentos eram mais ridículos que horóscopos. Acostumou-se. Tinha sempre uma citação genial de algum pensador, filósofo, autor de romance vagabundo, tira de jornal. Lia muito, mas não para engrandecer-lhe a cultura e sim para disfarçar a mente amarelada pela lembrança das coisas emboloradas. Fartava-se do pensamento alheio para ter assunto com o mundo. Então, de pensamento em pensamento que assimilava de outro alguém, esquecia. Esquecia de lembrar as verdades que vivera. Esquecia das declarações sem palavras, do olhar, da boca, dos pêlos, do cheiro, do gosto. “O amor ensina a mentir”, leu um dia. Entendeu.
Não conseguia esquecer. O que lhe atormentava é que não eram as tormentas que não esquecia. Não esquecia o gosto, o cheiro, os pêlos, a boca. O olhar. Mas tocava-lhe a lembrança de uma forma que atormenta. Com uma cor amarelada, parda, do que já é antigo. Cada vez mais atrás de tudo que vivia hoje. Pensava que chegava a ser ridículo não conseguir esquecer. E era. Seus pensamentos se transformaram em uma série de divagações ridículas, quando não... bem, melhor não entrar em seus pensamentos com muita profundidade. O fato é que sabia quão ridículo era tudo que se passava em sua cabeça. Então com a consciência de sua ridícula consciência, disfarçava pensamentos. Para si mesmo e para o mundo. Disfarçava com opiniões encontradas em orelhas de livros, páginas de revistas, horóscopos. Sim, seus pensamentos eram mais ridículos que horóscopos. Acostumou-se. Tinha sempre uma citação genial de algum pensador, filósofo, autor de romance vagabundo, tira de jornal. Lia muito, mas não para engrandecer-lhe a cultura e sim para disfarçar a mente amarelada pela lembrança das coisas emboloradas. Fartava-se do pensamento alheio para ter assunto com o mundo. Então, de pensamento em pensamento que assimilava de outro alguém, esquecia. Esquecia de lembrar as verdades que vivera. Esquecia das declarações sem palavras, do olhar, da boca, dos pêlos, do cheiro, do gosto. “O amor ensina a mentir”, leu um dia. Entendeu.
[2008]
Depois de tanto tempo a presença volta, como se a pessoa estivesse ali. Olhando. E é então que a dor espreita baixinho. Mas grita-lhe que retorne para o seu canto e lá fique. Virada para a parede. Em penitência por todo o sofrimento que causou. Opção? Não. Ninguém opta pela dor e o sofrimento é sua conseqüência mais direta. É o corredor de passagem para a próxima porta. E pensar que havia amor. E pensar que havia os mais nobres sentimentos. Antes. Antes de sentir que a fantasia revela-se como a mais real manifestação de tudo que foi. Como a única que ficou. Nem ela está mais lá. Olha pela janela e vê em infinito. Imaginando-se olhada, pensa se a silhueta por trás da cortina lhe revela. Faz um gestual de pés delicadamente calculado. Assim permanece por alguns instantes. Fecha os olhos e sente o olhar do de dentro da sala. Uma conexão com o ir-real. Pronto. Após a elipse lapso, retoma a retina à rotina.
Depois de tanto tempo a presença volta, como se a pessoa estivesse ali. Olhando. E é então que a dor espreita baixinho. Mas grita-lhe que retorne para o seu canto e lá fique. Virada para a parede. Em penitência por todo o sofrimento que causou. Opção? Não. Ninguém opta pela dor e o sofrimento é sua conseqüência mais direta. É o corredor de passagem para a próxima porta. E pensar que havia amor. E pensar que havia os mais nobres sentimentos. Antes. Antes de sentir que a fantasia revela-se como a mais real manifestação de tudo que foi. Como a única que ficou. Nem ela está mais lá. Olha pela janela e vê em infinito. Imaginando-se olhada, pensa se a silhueta por trás da cortina lhe revela. Faz um gestual de pés delicadamente calculado. Assim permanece por alguns instantes. Fecha os olhos e sente o olhar do de dentro da sala. Uma conexão com o ir-real. Pronto. Após a elipse lapso, retoma a retina à rotina.
[2005]
Perdida por entre penhascos
Alimentando tremores noturnos
Despencou para novos mundos
Encorajou-me um novo ser
Rodeada por estranhas criaturas
Com as entranhas tesas, duras
Percebi a morte a rondar-me
Estaria morta de verdade?
Arranquei as pedras com vigor
Que atrapalhavam meus movimentos
Senti novamente o ar
A encher os pulmões com os ventos
Que batiam em minha face
Cravada de feridas rotas
Abertas pela queda bruta
Doídas com sangue em gotas
Estava então viva
Em outro nível de existência
Mais livre do que antes
Mais pura, mais essência
Meus pés colocaram-se retos
No chão rochoso e frio
Senti-os leves e macios
Como se voar fosse certo
E voar consegui
Alto, bem alto e forte
Pude ver que não era morte
Era vida, liberdade afinal
E em um rasante desbravado
Colhi flores do penhasco
De onde havia pulado
Nesse momento enxerguei
Meu olhar arregalado
E as lágrimas que do meu parco mundo
Havia derramado
[2007]
Mascando chicletes
Buzinas no ouvido. O carro passa
A lua dá um sorriso enquanto o bafo quente
do ar parado ultrapassa a fresta aberta
dou uma lenta tragada no cigarro
se a morte é para vir, que venha lenta
enquanto isso barcos navegam no rio
que continua lindo. Indo.
Embora nada mais seja tão limpo
o que vejo da janela já morreu antes que eu
Mais um trago. Mais um farol. Mais um passo.
Mais um cigarro. Passo. Buzina grita!
Calmaíseumotorista todomundo
querpaz ... ar ... sópodiasertaxista...
Os barcos, agora em alto mar.
jogam água pra todo lado. Na tempestade
nunca me afastei do barco. Por amor.
pela bolha do chiclete
Meu coração, que esquenta com o bafo doce
(Não sei se do ar parado ou se
tão grande a bolha cor-de-rosa)
Explodiu.
[2007]
Vim dizer que sinto saudade. Não quero mais. Sinto muito. Só vim dizer. Saudade. Gosto da palavra. Por que inventaram palavra tão bela para uma coisa tão só? Será por isso única? Está explicado. A singularidade está para o sentimento ser só. Sem plural. A minha saudade tem gosto de sal. Dá sede. E vontade de comer doce depois que se prova, sabe? A saudade que te falo não sacia com lembrança. Sim. Eu lembro. Mas sinto saudade do que não aconteceu. Acontece. Acontece que meu coração ficou frio. E não quero mais esse negócio. Esse gelado no peito. Sem sangue vermelho e pele rosada. Não. Não é por você que sinto. Sinto por mim. A saudade é do que eu senti. E do que eu não vivi. Aquela formosa. A rosa. Que não se cansa de ter esperança. Chega! Meu coração não pode mais. É só a lembrança de um vulto feliz. Por isso sinto saudade de mim. Eu sei. Eu preciso aprender a ser só. A só ser. Por isso não quero mais esse negócio de você. Vai. Segue teu destino e rega tuas plantas. Suave é viver. Só viver. Já vai? Não. Espera! Deixa-me dizer. Ainda não terminei. Deixa. Deixa algo. Algo teu. Quer levar tudo? Não leva. Não quis dizer. Não leva tão a sério. Chega mais perto. Ficou tudo tão frio. Olha, amanheceu. Eu sei. É tarde. Tudo bem. Então vai. Mas, vou te contar... Não quero mais esse negócio de você, longe de mim! Só vim dizer... Sinto muito. Eu sei. É o fim. Olha o céu quando quando a tarde morre. Lilás. Que contradição... Percebe?
[2009]
Ela tinha o tom do mar, olhar de estrela, pele de areia. Ela era morena azul chumbo e brilhava concha branca em dia de sol. Brincava de água e dançava nas ondas. Ela era madrugada. Aquela hora em que a noite parece ter preguiça de despertar e o sol vai chegando, de mansinho, e a lua resiste. Permanece alta e redonda. Ela era curva de lua e tinha sua magia. rodopiava na areia até ficar tonta. Depois afundava os pés na beira d’água e via –pouco a pouco – serem encobertos pela areia que dissolvia com a onda. Ficava assim por instantes longos, até que fincasse como raiz na praia. Sua raiz estava no mar. Sua mais forte veia, seu alimento. E seu sal.
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