segunda-feira, 14 de janeiro de 2013


[2009]

Café e Calmante


Café e calmante. E o coração voa lá fora porque teima em procurar um lugar. O corpo fica. Embriagado de café e calmante. A contradição persiste. Não gosto dos genéricos, prefiro o particular. O coração perdeu-se inebriado de éter. Subiu até se perder de vista. Quis altura, quis o vôo e não soube voltar. Acostumou-se com outros ares. Aqui, pras bandas da cidade, ataca-lhe taquicardia. Então, deixa voar. O corpo fica. Café e calmante. Hoje vou ser justa comigo: vou fazer o prazer com minhas próprias mãos. Vou sentir o carinho que não recebi quando te pedi. Vou escutar as palavras de compreensão, de afago, de acolhimento que eu mereci e você não disse. Vou ver meus olhos transbordarem de ternura mesmo sem o espelho para refletir. Vou compreender minhas intolerâncias e acatar minhas incertezas. Vou me fazer companhia, cuidar de mim e me permitir o sorriso que não recebi. Vou gargalhar das minhas piadas, vou chorar de rir das minhas feridas e lamber o sangue até secar. Vou ser selvagem. Não vou me civilizar, nem dizer palavras educadas. Não, não vou ser polida. Vou ser inteiramente as minhas faltas, as minhas ausências, as falácias e a vastidão da minha alma. E não quero mais saber se alguma dor te dói. Vou rir da tua dor até morrer-te em mim. Vou zombar do teu nome, esse que você fez por merecer. Vou dar o braço a torcer e reconhecer a tua feiura. Sim, não estou com coração. Ele voou e me deixou aqui. E quando ele encontrar meu lugar, volta pra me buscar. E sairemos voando em pulsos, com movimentos ritmados e voluntários, com rumo definido. Nesse dia, você vai saber, porque o céu vai pegar fogo e a lua, avermelhar.