sábado, 19 de outubro de 2013

[2013]


Se eu soubesse antes, eu tinha te deixado menino. Eu teria te deixado antes, menino. Se eu soubesse que não te sabias tanto quanto eu te decifrava em teus loucos devaneios desencontrados de coração ferido. Se eu soubesse que não te sabias, tinha te deixado criança, sabendo-se tudo sem saber-se. Feliz. Mas tua procura foi ao mesmo tempo tão ávida quanto do filho no ventre prestes a nascer. Queria mais ar nos pulmões e eu não o soube criança. Vi a você homem feito. Queria tua pele e nem quando te tive pude perceber o quão macia era de ser recém-criado. Já nem sei mais quando nos conhecemos. Ao longo de todo este tempo (tempo?) e dos poucos encontros, releio os diálogos que tivemos e não parecem nossos. Alguns nem parecem que aconteceram. Parecem palavras perdidas entre este espaço/tempo e outro qualquer. Eu não tenho todas as respostas. Mas era tão visível para mim todos os teus eus por baixo de tuas máscaras. Me assustava tanto te saber em tão poucos olhares. Ver em ti teus múltiplos decifrados em tão pouco tempo. Tempo? O que é o tempo? Eu não entendo tudo... E sinto que você sabia que eu te lia com tamanha facilidade... Eu não controlo nada. Você fechava teus olhos, cobria com teus óculos escuros, desviava o olhar. Sem contato visual, por favor. Tudo foi como um pedido sem palavras. Tive vergonha de minhas confusas grosserias. Mas elas tinham uma finalidade pontual. Atender ao pedido que eu lia em ti: se afaste de mim. Como quando não se sabia tão exposto e eu não te sabia tão menino. Sem palavras, teu pedido era: se afaste de mim. E eu me afastei. Tantas vezes que nem sabe. Nem sentes tudo que escrevo aqui. Não leias estas linhas. Não é para que saibas. Não compreendes? Não pode. Ultrapassaria a linha exata em que te apoia teu tempo. Se eu te soubesse menino... E tão assustada ficava que eu mesma me sentia criança. Me via tão perdida nessa leitura tão clara de suas nuances e sentimentos e explosões e tão distante. Se afaste de mim. Era teu pedido silencioso. E hoje eu finjo que não te entendo. Finjo que não te conheço e que te renego. Finjo raiva, rancor, finjo mágoa, finjo que me feriu para te manter em teu caminho. E sou (cuidadosamente) tudo o que não quer que eu seja. Te afasto de mim. Eu não escolhi ler teus silêncios.