[01.07.2007]
Sagrado
Muito pior que ver desmoronar um castelo é a quebra de um santuário. Quando as divindades espatifam no chão. Uma a uma em suas vestes sagradas sangradas pelo estúpido choque. Pelo desastrado contato do toque humano. Acredito ser assim que surgem as lágrimas de sangue nas imagens dos santos. O pressentimento da queda. Plantadas em alguma alma, são de repente arrancada pelas raízes. A sangue frio. A quebra de santuários tira o chão. É a descrença na fé. As gotas do sangue sagrado latejam na alma. As feridas que não se fecham e não se curam. Não nesta existência. Pretensão humana tocar os deuses e aspirar seu ar. Não conseguimos sustentar-nos em tal altura. Que aos nossos pulmões é tão inebriante. Descemos. Em quedas reticentes e renitentes. Assim dá-se o desastre de um santuário. Enxergar que no humano, nem tudo que habita é sagrado, nem por amor. Sentir o real sentido do profano dentro de cada um de nós.