segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

[2008]

Não conseguia esquecer. O que lhe atormentava é que não eram as tormentas que não esquecia. Não esquecia o gosto, o cheiro, os pêlos, a boca. O olhar. Mas tocava-lhe a lembrança de uma forma que atormenta. Com uma cor amarelada, parda, do que já é antigo. Cada vez mais atrás de tudo que vivia hoje. Pensava que chegava a ser ridículo não conseguir esquecer. E era. Seus pensamentos se transformaram em uma série de divagações ridículas, quando não... bem, melhor não entrar em seus pensamentos com muita profundidade. O fato é que sabia quão ridículo era tudo que se passava em sua cabeça. Então com a consciência de sua ridícula consciência, disfarçava pensamentos. Para si mesmo e para o mundo. Disfarçava com opiniões encontradas em orelhas de livros, páginas de revistas, horóscopos. Sim, seus pensamentos eram mais ridículos que horóscopos. Acostumou-se. Tinha sempre uma citação genial de algum pensador, filósofo, autor de romance vagabundo, tira de jornal. Lia muito, mas não para engrandecer-lhe a cultura e sim para disfarçar a mente amarelada pela lembrança das coisas emboloradas. Fartava-se do pensamento alheio para ter assunto com o mundo. Então, de pensamento em pensamento que assimilava de outro alguém, esquecia. Esquecia de lembrar as verdades que vivera. Esquecia das declarações sem palavras, do olhar, da boca, dos pêlos, do cheiro, do gosto. “O amor ensina a mentir”, leu um dia. Entendeu.